terça-feira, 29 de setembro de 2026

Grupos alvo das ciências humanas e sociais

"A preocupação normativa em distinguir as esferas da ciência e da política tem marcado a sociologia desde seus esforços iniciais, no século XIX, para se estabelecer como uma disciplina científica, constituindo, o ensaio de Max Weber (2004) a esse respeito, uma referência paradigmática. Quando o interesse do analista é, entretanto, compreender a historicidade das concepções e práticas que marcaram a trajetória do campo, essas fronteiras não devem ser assumidas como naturais ou dadas de uma vez por todas, mas vistas como constructos contingentes e constantemente negociados, elaborados com base em valores, visões de mundo e interesses de atores e grupos sociais determinados, inscritos em um tempo e lugar também específicos (Shapin, 1992).

No caso em tela, buscamos examinar que ideais de sociedade informaram tanto o esforço de Pierson em demarcar as fronteiras do que denominou de sociologia científica quanto as abordagens e os enquadramentos teóricos que julgou pertinentes para o estudo da vida social. Nesse sentido, no lugar da tentativa de desvelar possíveis motivações ideológicas inconfessáveis na produção científica do sociólogo, propomo-nos a analisar, a partir de uma perspectiva informada pela história e pelos estudos sociais da ciência contemporâneos, de que maneira seu esforço para instaurar um regime epistêmico específico para a sociologia no Brasil constituiu, ao mesmo tempo, a defesa de determinadas formas de ordenamento do mundo social.2"

MAIO, M. C.; LOPES, T. DA C.. Entre a ciência e a política: Donald Pierson e a busca por uma sociologia científica no Brasil. Sociologias, v. 24, n. 60, p. 228–266, maio 2022.
https://doi.org/10.1590/18070337-110170


"Por causa disto, para além de pensar no progresso da ciência, precisamos progredir dentro da ciência. O atual modelo epistêmico hegemônico no ocidente é temporalmente, espacialmente e socialmente localizado, ou seja, ele foi construído em uma determinada época, refletindo o contexto social-histórico da mesma e do grupo que o produziu (Sondra FARGANIS, 1997). Este grupo consistia, majoritariamente, de homens brancos, ocidentais e burgueses, que se beneficiavam da estrutura de dominação colonial, racista, patriarcal e capitalista que se desenvolvia no século XVIII (CODE, 1993; FARGANIS, 1997). Isto significa que ele não é uma “lei natural” ou algo imutável. Da mesma forma como se produziram críticas às concepções anteriores ao seu surgimento, agora se produzem críticas que reivindicam uma ruptura da qual nasça um modelo epistêmico mais apropriado às necessidades do contexto social atual. E, olhando para as críticas feministas à ciência, espera-se que o novo modelo epistêmico reflita, ao invés dos interesses dos grupos dominantes, as perspectivas dos grupos dominados (HARDING, 1993; Diana GONZÁLEZ e Nelson RENGIFO, 2009; Breny MENDOZA, 2014).


Já o feminismo standpoint surge debaixo de grande influência marxista. Ele questiona os princípios fundamentais do modelo (neo)positivista e defende que uma ciência não pode ser neutra - ela precisa estar comprometida com a transformação social, com a eliminação do sistema de dominação. Porém, isso não significa negar a ciência, ou a produção de um conhecimento coerente com a realidade. Pelo contrário, quanto mais precisa a análise, melhor a intervenção no fenômeno. Assim, as feministas desta corrente reconstroem a ideia de objetividade, que ao invés de ser entendida como a separação da subjetividade, passa a ser definida como um processo crítico desta. Por fim, as feministas do standpoint defendem que a ciência deve partir do olhar dos grupos subjugados. Ao estar, simultaneamente, em uma posição de dominação e resistência, eles teriam uma perspectiva mais ampla da sociedade do que o grupo dominado, e, portanto, um privilégio epistêmico (Nancy HARTSOCK, 2003; HARDING, 1993)."

GÓES, J.. Ciência sucessora e a(s) epistemologia(s): saberes localizados. Revista Estudos Feministas, v. 27, n. 1, p. e48373, 2019. 

domingo, 13 de setembro de 2026

Uso ideológico de sociedade e história

A caracterização da história e da sociedade por viés ideológico de esquerda ou direita tem origem em usos políticos recorrentes de grupos de interesse. Ter alguma semelhança com confiabilidade e objetividade não implica necessariamente em um uso político típico. Caracterizações ideológicas possuem lacunas descritivas e um recorte "científico" não valida uma ideologia como representante isento da ciência nem como parâmetro de maior benefício comum à sociedade.

domingo, 6 de setembro de 2026

Poder e internação psiquiátrica

Casos de tolerância a absurdos no judiciário demonstram por contraste que internação psiquiátrica são direcionadas a pessoas sem poder e voz

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Explicitação do termo "privilégio"

O termo "privilégio" tem carga ideológica implícita e se explicitado em seus componentes implica em discussão de juízos de valor políticos. Uma explicitação do termo seria "acesso não legítimo a algo". O componente de legitimação normativa de acesso a algo se configura assim como uma questão e não uma resposta pronta. A esquerda define a legitimidade/ilegitimidade normativa de algo em termos de igualdade/desigualdade de origem ou de resultado. A direita define a legitimidade/ilegitimidade de acesso a algo em termos das consequências do respeito a contratos e à propriedade privada. A esquerda relativiza contratos e propriedade privada com o objetivo de estabelecer igualdade e isso inclui aspectos simbólicos mais sutis de acesso a algo. A direita relativiza o valor igualdade pelo reconhecimento de que contratos e propriedade privada tem resultados variáveis e uma padronização de acesso a algo através da violação de contratos e propriedade privada teria consequências difusas negativas.